PRIMEIRO REGISTRO

Lembrar é um negócio estranho, sobretudo quando são memórias mais antigas ou que há muito tempo não se visita. Você consegue sentir a presença da informação, mas traze-la ao presente se mostra um desafio amargo. A informação parece que fica presa no trânsito e uma angústia pior que o esquecimento se instala. Está ali, se sabe que está, e ainda assim não se consegue alcançar. Para mim, esse é um dos piores sintomas dessa vida de telas e informações excessivas. Um superávit de informações com a importância de um saco de lixo transbordando para fora das lixeiras da cidade mental: ruas contaminhadas de imundície impedindo o trânsito dos carros. Um ritmo de vida tão acelerado que não se desfruta do ambiente. Preocupado em chegar lá, nem se olha para as memórias que estão sendo engolidas pelo lixo. Uma hora dessas, entretanto, se sente o ímpeto de buscá-las... E onde estão? Tanto lixo ao redor... Tanto caminho percorrido na certeza ansiosa de que o mundo iria se romper para que, no fim, o mundo não rompesse, mas suas capacidades mentais sim.

Ainda que eu não consiga alcançar as memórias do momento que quero falar, posso fazer um esforço para descrever a sensação do que quero conversar. É 2014, tenho 13 anos, estou sozinho em meu quarto. A madrugada é o momento do dia que me pertence. Toda a vida adulta do lado de fora acabou e o mundo é meu.

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